domingo, 10 de junho de 2007

Linhas da terra...


Litografias em exposição na Galeria Shibuichi
em Leça da Palmeira

"Linhas da terra..." Litografia s/papel 70x 50cmx3

Linhas da terra...
...as mesmas linhas que desenharam o desenvolvimento natural no tempo,... um tempo num lugar em que tudo parece subitamente possível e impossível...
..um monstro que hoje faz parte do imaginário daqueles que o recordam com saudade e que ainda o ouvem com o ouvido bem encostadinho nos ferros do carris, como se conta nas lendas...
Memórias de reflexos de imagens que vagueiam pelas janelas de um comboio num imaginário observado por qualquer um viajante, imagens que se repetem e que correm como o vento pelo olhar mais distraído de quem quer ver, é muitas vezes nesta confusão de paisagem imagens que se repete a minha mensagem, vezes e vezes sem conta.
Uma viagem que, não só nos permitia usufruir da paz e da serenidade de paisagens quase inigualáveis, como também se tratava de um fio condutor.

No mínimo, pretendo lançar um grito de alerta para os inconvenientes irreversíveis. Sendo esta uma região, única no património natural e cultural português, percorrendo e conhecendo a sua grande sensibilidade, o que para mim é rever vivendo com emoção a percepção da necessidade de nos assegurar-mos da conservação de um património que é único em Portugal.
...hoje, são quilómetros de linhas enfurrejadas, edifícios abandonados, túneis e viadutos em ruínas, ...








Como as estações condicionam toda uma vida, a sucessão dos gestos e a sua malha apertada de funcionalidades e significações...
São as linhas da terra que semeiam o percurso da memória.






Neste sentido a segunda fase do percurso transporta-nos em dois movimentos, um é movimento do comboio, o outro são as árvores que se mexem consoante a velocidade e o reflexo, pelo que temos dois movimentos paralelos, cada um dos quais corresponde ao outro. Além disso, há a simplificação das árvores em linhas que ditam formas que nos iludem num paralelismo elementar. É uma espécie de associação de reflexos numa memória de árvores cortadas em série num trajecto que se desloca no tempo e no espaço imaginário.


Linhas que seguem paralelas em janelas repetidas,
reflectindo os troncos em linhas cortadas.









Este é um reflexo na ideia de repetição e é efectivamente pensar ainda que assumindo diferentes contornos em relação a esta apresentação deste trabalho, a original inspiração poético literária em Marcel Duchamp, se se tratar do acaso de vida ou, de um modo geral, o encontro casual e inesperado de sentidos, leituras e significações, justificando os pontos de partida essenciais que me motivaram e me conduziram à prática da repetição na mensagem, numa forma de leitura visual contínua, inserida num contexto real de viagem e observação do mundo delimitado pelo enquadramento da janela. É precisamente neste sentido que me refiro a Marcel Duchamp em “Pharmacie”de 1914,
(M.D. observa pela janela de um comboio o reflexo de um ponto vermelho visualmente inserido na paisagem, na saída compra um postal ilustrado com a paisagem e intervem no postal acrescentando um ponto vermelho), em que os jogos de linguagem promovidos por uma criativa intitulação se constituirão como determinantes para um segundo momento igualmente radical de proposta artística de ready-made, e que admite em verdade uma maior influência dos jogos de significações em títulos muito mais ousados ao nível da provocação, ocultação
e resistência interpretativas.







Na minha proposta litográfica, com definições de série de Provas Únicas, no sentido de leitura das imagens como uma Só Obra, deve-se ao facto de poder trabalhar imagens fotográficas com caracteristicas de dentro para fora da impressão da fotografia e que se reflectem na forma de sobreposição da imagem em tons e formas como resultado final.
Reflexos das imagens que vagueiam pelas janelas de um comboio num imaginário observado por qualquer um viajante, imagens que se repetem e que correm como o vento pelo olhar mais distraído que se possa ver, é muitas vezes nesta confusão de paisagem que se repete a minha mensagem, vezes e vezes sem conta.




















1 comentário:

samaiel disse...

Ao observar as suas imagens, é-me trazido à memoria o grupo de momentos e sensações que nao irei esquecer. Apos a leitura do seu texto, é como se tivesse o ouvido bem encostadinho nos ferros do carris. O mapa da linha do TUA. TUA, palavra que neste contexto apenas a ouvi uma vez e tenho agora a oportunidade de a ler. Os meus parabens pelo seu excelente trabalho.

Com carinho.